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04 março 2008

Que Benfica para o presente e futuro?

Esta é a pergunta que faço após o Sporting – Benfica que acabou em empate e que garantiu alguma tranquilidade aos encarnados rumo a um lugar na Champions.

De qualquer forma ,e apesar do empate, o SL Benfica voltou a não convencer e voltou a praticar um futebol feio, pouco coeso, desorganizado e sofrível. Estou certo que as ausências de jogadores como Luisão, Petit, David Luiz, Nuno Gomes, etc fazem diferença, mas a verdade é que as exibições do Benfica têm sido sempre mais do mesmo, os discursos de Camacho resumem-se à bola que entra ou não, ao terem dominado sem que em campo tenham feito algo para isso, etc, etc, etc.

Análise ao actual plantel

Avaliando de forma muito resumida o plantel actual, constato que falta uma opção na lateral direita para dar competitividade a Nelson (Luis Filipe terá forçosamente que sair no final da temporada), uma opção para central (Só David Luiz e Luisão não chega, pois Edcarlos e Zoro não convencem) e na esquerda ainda é cedo para avaliar Sepsi.

No meio campo as opções também não são as melhores. Jogar com Petit e Katsouranis juntos implica um meio campo com menor capacidade criativa, com menor capacidade de sair em transições rápidas. Por vezes dá mesmo a sensação que Petit e Katso andam aos empurrões, uma vez que ocupam o mesmo espaço. Na minha opinião ou Camacho decide utilizar um e consegue resolver o "mal estar" que irá resultar de ter que colocar um dos dois nomes que falei no banco, ou arrasta Katsouranis para central.

Em relação aos interiores a coisa complica-se ainda mais. Binya é um jogador com margem de progressão e útil ao plantel, Nuno Assis é demasiadamente irregular para ser opção, Maxi é extremamente esforçado e polivalente mas falta-lhe talento. Sobra Cristian Rodriguez (também opção para terrenos mais adiantados), provavelmente um dos mais talentosos jogadores do Benfica. E sobra ainda o maestro Rui Costa que num 4-3-3 poderá jogar uns metros mais recuado abdicando da posição 10 passando a desempenhar as funções de um 8.

Para as alas aparecem os miúdos Adu e Di Maria. Dois jogadores ainda em fase de adaptação, dois jovens que estão a maturar e a optimizar as suas capacidades, dois jovens que têm saído algo prejudicados por não jogarem nas suas posições de origem. De qualquer forma não são extremos puros e dificilmente serão os elementos certos para municiar as “twin towers” do Benfica.

Na frente temos Cardozo que parece ser de longe a melhor opção para a frente de ataque do Benfica, o possante Makukula, Nuno Gomes e ainda o intermitente Mantorras. Tenho algumas dúvidas que Makukula tenha qualidade para ser titular (embora seja um jogador interessante para lançar em determinados momentos do jogo), Nuno Gomes continua a ser fustigado por lesões, e continuam as dúvidas sobre a capacidade do “mágico” Mantorras.

O desenho táctico

Outra das questões que se colocam é relativa á forma como o Benfica se deveria dispôr em campo.

4-4-2 clássico

Se o objectivo passa por jogar com Cardozo e Makukula juntos na frente, só fará sentido jogar em 4-4-2 clássico. Ou seja 2 alas bem abertos, dois medios centro e dois pontas de lança na frente com Cardozo mais móvel e Makukula mais fixo na área.

Para jogar desta forma falta claramente ao Benfica flanqueadores, jogadores capazes de utilizar bem as faixas e capazes de municiarem da melhor forma os pontas de lança. Outra questão que se levanta será o papel de Rui Costa neste figurino táctico. Não me parece que o Maestro encarnado terá a frescura física para actuar numa posição que irá exigir grande desgaste em recuperações de bola e depois raids de 30,40 metros para transportar a bola para o meio campo ofensivo.

4-4-2 Benfica

4-3-3

Se por outro lado a opção passar pelo 4-3-3, com um pivot defensivo e dois interiores, Makukula ou Cardozo, um deles, terão forçosamente que ser relegado para o banco.

Partindo do princípio que o treinador optará por Petit ou Katsouranis para pivot defensivo, faltará um medio interior de qualidade que garanta eficácia nas transições ofensivas e que permita dar maior dinâmica ofensiva ao meio campo encarnado. A batuta ficaria sob a responsabilidade de Rui Costa, que continua a evidenciar boa forma.

Para puder jogar neste sistema táctica faltará ainda um extremo puro aos encarnados. Um jogador forte no um para um, desiquilibrador e com qualidade no cruzamento.

Na outra faixa, como falso extremo, Rodriguez poderia ser a solução. Um jogador em constantes diagonais da linha para dentro, um jogador capaz de aparecer várias vezes como segundo ponta de lança e com o talento necessário para marcar golos.

4-3-3 Benfica

4-2-3-1

E temos ainda o 4-2-3-1. Este desenho táctico permitiria a utilização de um duplo pivot defensivo, desta forma Petit e Katsouranis apareceriam juntos no meio campo dando liberdade a Rui Costa para operar em terrenos mais juntos á área adversária.

O grande problema (e bem visível em Alvalade aliás) é a falta de soluções para assegurar com eficácia e rapidez as transições ofensivas.

Petit e Katsouranis revelam grande dificuldade em construir, em jogar para a frente. Ora se o duplo pivot não é capaz de assegurar as transições, também não será Rui Costa (a jogar mais perto do ponta de lança) que irá garantir o transporte de bola, sob risco de acumular grande desgaste e como tal desaparecer nas segundas partes dos jogos.

A jogar desta forma o Benfica torna-se extremamente previsível na primeira fase de construção, permitindo ás equipas mais arrojadas.. um pressing alto que coloca e irá continuar a colocar grandes dificuldades ao Benfica para sair a jogar (como se viu em Alvalade).

4-2-3-1 benfica

Conclui-se portanto que ao Benfica faltam soluções para jogar em qualquer um dos sistemas tácticos que foram referidos.

A falta de interiores com capacidade para assegurar as transições e de extremos capazes de potenciar o jogo nas faixas castram o Benfica de maior imprevisibilidade e de maior vocação ofensiva.

Estas lacunas baixam claramente o ritmo de jogo encarnado, tornam o seu futebol algo previsível e extremamente dependente de 1,2 jogadores.

O futuro

Para o futuro conclui-se portanto que para além da falta de soluções para algumas posições chave no terreno, falta também ao Benfica uma plena definição da forma como irá actuar.

Mas não são apenas estes dois os problemas do Benfica para a próxima época.

Se é de opinião geral que falta qualidade á equipa do Benfica, o cenário agrava-se ainda mais quando constatamos que 3 dos principais jogadores encarnados poderão estar de saída.

Leo, quanto a mim e apesar da idade, é provavelmente o melhor lateral esquerdo da Liga. Rodriguez é um jogador versátil, com carácter e com talento. E Rui Costa tem sido o grande impulsionador do jogo encarnado, o grande suporte da equipa.

Todos eles poderão estar de saída. Se a qualidade do plantel já deixa um pouco a desejar, ao subtrairmos as três peças agora citadas a situação torna-se dramática.

Nomes

O futuro director desportivo e o departamento de prospecção sob a liderança de Rui Aguas estarão, certamente, a preparar a próxima época e a avaliar os atletas que podem reforçar o SL Benfica.

Como opinião pessoal deixo três, quatro possibilidades:

Para reforçar o centro da defesa (pois só Luisão e David Luiz não chegam) tentaria garantir Geromel, um central jovem, veloz, com uma forte personalidade e com grande margem de progressão. Para a lateral esquerda e apenas como opção (não me parece que seja o jogador certo para ser titular) contrataria Rodrigo Alvim ao Belenenses. Por fim e de forma a preparar já a retirada de Quim e a mais que provável saída de Butt contrataria Beto, guarda-redes do Leixões.

A estas opções internas juntariam mais 2,3 atletas ex juniores (como forma de rentabilizar o trabalho efectuado na formação) e recorreria ao mercado externo para contratar 2,3 jogadores de qualidade sobretudo para as posições em campo (médio interior, extremo) onde em termos internos não abundam opções de qualidade.

Só o futuro dirá se a classe dirigente do Sport Lisboa e Benfica terá a arte e o engenho de construir um plantel sólido, capaz, que garanta soluções e dotado de uma identidade muito própria.

03 fevereiro 2008

Um FC Porto campeão ao som do tango Argentino

A “dinâmica” do FC Porto
Mais do que a diferença pontual no Campeonato, aquilo que me impressiona neste FC Porto é a sua dinâmica de jogo.
Quem teve a oportunidade de assistir a um jogo do FC Porto ao vivo (na televisão não se tem a mesma perspectiva) perceberá ao que me refiro.
Em termos ofensivos assistimos a uma espécie de carroussel. Os jogadores em constante movimento, a aparecer em zonas que teoricamente não seriam suas, uma dinâmica tal que destrói qualquer sistema defensivo contrário e que leva ao aparecimento de atletas com espaço para finalizar. Os interiores não raras vezes aparecem nas faixas ou em zona de finalização, o trio da frente está constantemente em trocas posicionais, os laterais dão muita verticalidade ao jogo ofensivo, etc. Enfim, um grande espectáculo.
Deixo aqui uma palavra de elogio ao professor Jesualdo Ferreira pois montou uma “máquina” muito bem oleada. Apenas lhe aponto o excesso de zelo na forma como aborda os jogos ditos “grandes”.

O tango argentino
Não posso contudo deixar de frisar a importância extrema que dois Argentinos têm na equipa: Lisandro e Lucho.
Quanto ao Lisandro já disse tudo num post anterior. Tem raça, tem qualidade, tem killer instinct e consegue jogar sem grandes oscilações de qualidade na ala ou no centro do ataque.
Lucho é um jogador de classe pura, de requinte. Posicionalmente diria perfeito, tem uma grande visão de jogo, uma grande qualidade de passe e o perfume de génio.
Quando chamado a defender preenche muito bem os espaços, efectua dobras, recupera bolas. Mas é no momento da transição ofensiva (as transições rápidas do FC Porto) em que Lucho potencia a sua qualidade. Recebe de forma elegante, levanta a cabeça e procura a melhor solução. Lançado o ataque acelera e procura espaço nas imediações da área (seja na zona central, seja em zonas laterais) abrindo linhas de passe, arrastando marcações ou pura e simplesmente aparecendo sozinho para finalizar (em Alvalade apareceu 5,6 vezes em situação de finalização). É classe pura.
Contudo para dançar um tango são precisos dois e quando Lisandro e Lucho jogam juntos..o futebol espectáculo está garantido. Capazes de jogar de olhos fechados um com o outro, efectuam maravilhosas jogadas a um dois toques..com o avançado Licha a procurar movimentos de ruptura para aparecer nas costas da defesa.

A "tecla" que faltava
No início da temporada chegou ao FC Porto Ernesto Farías, um avançado com grande estatuto na Argentina mas que havia falhado no futebol europeu tapado por um senhor chamado Luca Toni. 4 milhões de euros pelo passe.
O azar bateu á porta do Argentino e o tempo de adaptação a uma nova realidade e de afirmação de qualidade esfumou-se, Farías lesionava-se ( uma ruptura muscular) o que o levaria a parar 1,2 meses.
O que toda a gente se esqueceu na altura é que uma ruptura muscular em altura de pré-epoca afecta de forma bem vincada o rendimento de um jogador durante uma boa parte da temporada (um bom exemplo foi a paragem de Adriano na época passada por um problema semelhante..e que acaba por arrebentar e conduzir o Porto ao título a partir de Janeiro). Mais ainda, e como já foi citado, se o jogador tiver vindo de uma realidade diferente e como tal a precisar de adaptação.
A imprensa foi cruel com Farías, a SAD Portista foi criticada pela aposta, mas sempre tive o feeling que estavamos perante um jogador de qualidade (não porque o conhecia muito bem, mas por algo que me dizia que o jogador tinha qualidade). Num jogo da Liga Intercalar tive a oportunidade de dizer a quem estava comigo que apesar do Argentino ter rubricado uma exibição de fraca qualidade, parecia-me ter a estética e a “pinta” que distinguem os bons jogadores.
Curiosamente ou não ,pouco tempo depois, Jesualdo começa a dar oportunidades ao Argentino e o “tecla” Farías começou a comprovar valor. Um golo ao Braga, outro ao Aves, duas excelentes oportunidades para marcar frente ao Sporting e mais um hattrick no jogo de ontem (discutível se o primeiro golo deveria ser atribuido a Bosingwa ou Farías).
Aquilo que mais aprecio no Argentino é toda a sua movimentação sem bola. Apesar de ter baixa estatura e um porte ,á partida, insuficiente para se impor aos centrais, é um jogador venenoso, pois em constantes e rápidas movimentações aparece em situação de finalização. Tem faro pelo golo, consegue “explodir” no espaço e vai certamente continuar a marcar golos.
Muitos ditos “entendidos” de Futebol como é o caso de Ricardo Lemos, jornalista do Jornal O Jogo, arrepender-se-ão de avaliar um jogador sem o conhecerem primeiro.
Será que outro clube qualquer teria a paciência que o FC Porto teve com Farías? Ou até com Lisandro? A resposta parece-me óbvia.

Nota: Podem encontrar uma análise táctica ao FC Porto elaborada por mim na revista Futebolista do mês passado.

31 janeiro 2008

Raça e atitude

Há quem aprecie a qualidade técnica, há quem aprecie a visão de jogo, há quem aprecie quem marca golos, há quem aprecie quem os evita.
A qualidade que eu aprecio mais num jogador é a atitude.

O futebol é hoje, mais do que nunca, um jogo complexo. A sua evolução levou-nos a grandes enredos tácticos, pouco espaço no terreno e grande disputa por cada palmo de terreno.
Os fantasistas deixaram de ter espaço para progredir, é preciso pensar rápido, agir rápido. Para além do talento mais do que nunca é necessária uma boa dimensão física e uma mentalidade de trabalho e de sacrifício em prol do colectivo.
Não são muitos os jogadores que se destacam exclusivamente através de boas fintas, da capacidade de um para um, exige-se que o jogador actual seja completo e competitivo.

Como tal inconscientemente passei a apreciar outro tipo de jogador que não o “romântico”(aquele que levanta estádios com as suas fintas e os seus toques de génio).
Hoje aprecio o jogador que sabe interpretar as necessidades colectivas, o jogador que encara cada desafio como uma final, o jogador que nunca dá uma bola como perdida.

No futebol Nacional temos dois bons exemplos de jogadores que jogam com raça e atitude. No Dragão Lisandro Lopez é visto como um jogador “á Porto”, em Alvalade Vukcevic tem criado uma empatia enorme como os adeptos mercê da entrega e da capacidade de trabalho que apresenta.

Licha
O avançado Argentino é ,quanto a mim, a grande figura da Bwin 07/08. Finalmente arrastado das alas para o meio, Licha tem-se destacado pelos golos que marca, sendo actualmente o melhor marcado do Campeonato.
De estatuta média/baixa mas com muita velocidade e um tremendo pulmão, é um quebra cabeças para os centrais. Sempre em movimento, sempre á procura de diagonais, finaliza bem com os pés mas também com a cabeça.
Contudo os aplausos que os adeptos portistas lhe dispensam não se devem apenas a golos. Lisandro é o 1º defesa do FC Porto (ao contrário dos seus colegas da frente de ataque). Luta exaustivamente pela bola, vai ao choque, fecha linhas de passe, leva os defesas ao erro, não dá nenhuma bola como perdida. Cansa de ve-lo correr e quando o relógio atinge os 80,85 minutos lá continua ele em verdadeiros sprints com o objectivo de ganhar a bola.
Simplesmente assombrosa a capacidade de trabalho e a atitude deste jogador em campo.

O Karateca Servio
No clima tenso de Alvalade um jogador conseguiu criar empatia com os adeptos, contrariando a clara divisão entre jogadores e claque.
Falo-vos de Simon Vukcevic. Oriundo do Saturn, Vukcevic chegou a Alvalade num clima de aparente suspeita acerca da sua capacidade.
P. Bento decidiu encaixa-lo no losango do meio campo leonino, colocando-o no vértice esquerdo. Contudo o futebol do Sporting não convencia, os maus resultados sucediam-se e a falta de soluções no ataque levaram P Bento a alterar este encaixe.
Hoje Vukcevic joga no apoio a Liedson, vagueando entre a zona central e a asa esquerda do ataque. Esta mobilidade permiti-lhe aparecer frequentemente em situações de finalização sem marcação, e permitiu também soltar “Vuk” das amarras que lhe tinham sido impostas ao coloca-lo encostado á linha. Não sendo um jogador exímio no um para um, é um jogador de trabalho, um jogador de movimentações inteligentes e um jogo com faro pelo golo.
Em campo, fruto de uma personalidade vem vincada, vive intensamente o jogo, demonstrando, tal como Licha, uma grande atitude.
Estou certo que será menino bonito no Sporting por muito, muito tempo.

27 outubro 2006

Factor Medo!

Por vezes, assistimos a uma ligeira confusão de conceitos por parte dos opinion makers da nossa “praça”. Referem-se a alguns treinadores como sendo defensivos ou excessivamente pragmaticos, mas sem analisarem a fundo o porqué dessas suas afirmações.
O caso mais em voga e mais explícito deste tipo de opinião, são algumas opiniões que lemos acerca do treinador José Mourinho.

Para muitos comentaristas nacionais José Mourinho é um treinador defensivo e pouco espectacular.
Isto leva á seguinte questão: mas afinal o que é ser defensivo? Racionalizar a colocação das peças (leia-se jogadores) em conformidade com o espaço? Procurar “abafar” os espaços livres, em plena transiçao defensiva, para não deixar o adversário construir jogo pensado, rápido e desiquilibrante?
Ou será que operacionalizar uma equipa como um só bloco..sempre unido e articulado é ser defensivo??

Bom, como podem reparar, eu discordo totalmente desses opinion makers e acho que fazem uma total confusão em relação ao factor defensivo e portanto ,em parte, em relação também ao factor medo.
Nunca encarei o realismo dos treinadores menores, ao adoptar uma postura mais espectante em jogos contra clubes ditos “maiores”, como “medo”. Claro está, que essa postura espectante não pode ser traduzida no campo em 10 homens a defender perto da área..e tentativas de transições ofensivas (em contra-ataque por exemplo) 0. No entanto, acredito que pela diferença de capacidade individual dos atletas dos dois tipos de equipa em questão, há que haver uma maior racionalização e preenchimento do espaço defensivo, como forma de tentar equilibrar a balança, sem contudo perder ambição em procurar situações ofensivas bem trabalhadas e “repentistas”.
Aqui, não prevalece mais uma vez o factor medo mas sim um certo realismo e uma certa ponderação em relação a diferentes valias nos diversos critérios de análise á qualidade dos dois tipo de equipa (menores e maiores).


No entanto, o factor medo é patente, quando um treinador num clube apetrechado com atletas de boa qualidade, abdica de princípios ofensivos (o que não invalida o equilibrio) e de uma postura ganhadora.
Tomo como exemplo Jesualdo Ferreira.
Jesualdo é amplamente considerado pela crítica, um treinador realista, sóbrio. Prepara as equipas de forma a existir um equilibrio muito grande entre processos defensivos e processos ofensivos, não denotando características marcadamente ofensivas ou “espectaculares”.
Na sua passagem pelo Sport Lisboa e Benfica, verificamos um jogo que marcou o técnico e que o auto-catalogou de defensivo. Um célebre Porto-Benfica, em que o Benfica se viu em vantagem no marcador e a jogar contra um Porto reduzido a 10, ainda antes do final do primeiro tempo. Nessa altura, todos esperavam um Benfica confiante e dominador na 2ª parte, ou pelo menos uma equipa consciente, sóbria que tentasse pelo menos controlar os espaços, a bola ....o jogo.
A verdade é que o Porto venceu por 2-1, numa 2ª parte extremamente ofensiva e dominadora, perante um Benfica encolhido nas imediações da sua área..procurando de todas as formas tapar os caminhos da baliza. Não mais os adeptos se esqueceram, não mais Jesualdo conseguiu fugir do rótulo de defensivo.


Anos mais tarde, Jesualdo Ferreira chega a um clube com uma filosofia de vitória muito forte, fruto dos anos dourados pelos quais o clube tem passado.
Para trás fica um excelente trabalho no Braga, marcado por seriedade, profissionalismo e sobretudo pela aposta num realismo táctico extraordinário, sempre com o objectivo na obtenção de pontos, mesmo que tal factor significasse um empate.
Para um clube como o Braga, a filosofia adoptada foi acertiva, e as excelentes classificações na tabela assim o comprovam, sem querer de modo algum “camuflar” o dedo mais que visível de um Presidente super competente.

Contudo, o Braga não é o FC Porto, como tal teria que existir uma ponderação numa nova filosofia baseada na já citada dinâmica de vitoria do clube da cidade do Porto.
No Braga, Jesualdo sentiu algum descontentamente de alguns adeptos e simpatizantes, por nos momentos decisivos a equipa mostrar pouca audácia, pouco atrevimento para conseguir mais. Parecia injusto para quem não acompanhou a realidade do clube, mas a verdade é que Jesualdo, no FC Porto, tem dado razão aos críticos que lhe apontaram esses predicados.
O FC Porto, tem neste momento a falange de apoio mais exigente de Portugal. Não só se exigem títulos, como 100% de vitorias em casa e bom futebol. Para tal facto, muito contribuiu os anos dourados de Mourinho que elevou a exigencia dos adeptos a um patamar nunca antes visto. Os adeptos exigem dos jogadores esforço, sacrifício e inspiração a 100%, caso contrário as boas prestações em jogos anteriores são esquecidas (veja-se o caso do Quaresma).
E é baseado neste espírito que o balneário portista absorve a cultura vencedora, e interioriza que nada menos que a vitória interessa. Se é verdade que em termos externos, terá que haver uma “mentalização” que o Porto não será sempre dominador, como foi á poucos anos atrás, em termos internos, o clube tem a obrigação de assumir-se sempre como principal favorito, e como tal, jogar para ganhar em todas as partidas.

E creio que é aqui que Jesualdo peca.
Jesualdo, embora mereça credito por estar á pouco tempo no clube, e todos sabemos que incutir um modelo de jogo, e todos os seus princípios e sub-princípios, não se faz em semanas, ainda não interiorizou a mentalidade exigente e ganhadora dos seus adeptos.
É verdade que o discurso adoptado por Jesualdo, é um discurso positivo, ganhador, diria á dragão, contudo na prática ,ou seja ,no campo, não é isso que se tem verificado, e a verdade é que o descontentamento dos adeptos do clube nortenho aumenta a cada dia que passa, mesmo com o clube a liderar o campeonato (e aqui se ve a exigência reinante nas Antas).
No fundo, um treinador ao adoptar um modelo de jogo, tem de o fazer, não só de acordo com as suas filosofias e ideias, mas também tendo em conta o subsistema cultural do clube que orienta. Obviamente que este subsistema cultura é composto por um conjunto alargado de factores, no entanto, existe um que é importantíssimo manter, quando de facto, ele existe – a cultura de vitória. Esta cultura de vitória exprime-se em campo, num grande ímpeto ao longo das partidas, na capacidade de sacrifício, e numa mentalidade de ambicionar sempre mais.O empate ou a derrota numa exibição que até foi favorável, não é aceitável no ambito desta cultura.
Ora se Jesualdo encontrou esta cultura no FC Porto, tem de a saber manter. Não basta um discurso positivo, coerente e ganhador. É certo que o discurso de Jesualdo é importante, pois todos têm consciência da importância vital do aspecto psicologico no futebol. A mentalidade ganhadora e o sucesso de uma equipa estará sempre dependente da forma como se trabalha a vertente psicológica dos atletas e da forma como se consegue manter uma motivação alta e uma galvanização extrema.
Jesualdo, através do seu discurso, contribui para essa tal motivação, mas hoje em dia, o jogador “tipo” é mais consciente e “inteligente”. Sente os sinais que são passados pelo treinador quer através do seu discurso quer através da estratégia tactica que o treinador “passa” para os atletas.
“ Diz-me como jogas, dir-te-ei como és”, é uma frase que se pode aplicar ao extremo nesta situação.

Mas para perceber ainda mais facilmente as lacunas de Jesualdo Ferreira, vamos a exemplos:
Jogo Arsenal – FC Porto.
Jesualdo na conferência de imprensa adopta uma postura firme e convicta, afirmando que o Porto não iria mudar face ao adversário que iria defrontar, e que seria um jogo onde o Porto procuraria a vitória. Ora, face a uma situação de vitória em todos os jogos realizados por Jesualdo, não se esperaria um certo “abdicar” dos princípios que até aí tinham sido aplicados.
A verdade é que Jesualdo apareceu em Londres, com Cech no meio campo, Ricardo Costa a lateral esquerdo e numa variante do 4-4-2, actuando Quaresma na frente de ataque. Todas estas alterações, e todo este receio de Jesualdo em relação ao adversário, bem patente nas alterações que promovou no onze e no figurino tactico, “passou” para os jogadores um sentimento de receio, de “medo”. A verdade é que todas estas alterações tiveram consequencias nefastas na equipa portista, e viu-se um Porto muito nervoso e receoso (principalmente nos primeiros 25m), encolhendo-se no meio campo defensivo e optando por um postura espectante, permitindo ao Arsenal um “cerco” á area Portista.
Conclusão: derrota portista.

Seguiu-se outro jogo teoricamente complicado.
Jogo Braga-FC Porto
Jesualdo mais uma vez “passou” para os atletas um discurso positivo e convicto na vitória, mas em termos puramento tácticos resolveu lançar para o Municipal de Braga, uma equipa a defender muito recuada, abdicando da pressão, permitindo ao Braga imenso espaço para jogar. Os jogadores demonstraram mais uma vez nervosismo e ansiedade e o Porto voltou a perder.

Numa ultima deslocação complicada, até ao momento, mais 1 prova que Jesualdo se deixa levar pelo “factor medo”.
Jogo Sporting-Porto
Anderson de fora, é lançado P Assunção, numa estratégia que se entende e que até se ajusta ao que teoricamente deveria ser feito.
No entanto, viu-se um Porto novamente espectante (que até se pode entender..pois jogava em casa de um rival directo, que contava já com uma mecanização táctica que passava da época transacta, devido á continuidade do treinador), mas demasiadamente defensiva. 7, 8 jogadores nas imediações da área, abdicando de qualquer tipo de pressão para provocar perdas de posse de bola adversária, permitindo rápidos contra-ataques explorando a velocidade e fantasia dos elementos do ataque portista.
O Porto sacudiu a pressão despejando bolas para a frente, mas como a postura era demasiadamente espectante...não havia homens na frente para ganhar a posse de bola, como tal, em segundos a bola estava novamente na posse do Sporting.
O jogo foi sistematicamente isto, e mesmo quando o Porto (raras foram as vezes) conseguia efectuar transições ofensivas com alguma tranquilidade e alguma estratégia, na hora de alvejar a baliza, nao se encontrava um único elemento para ganhar as chamadas “segundas bolas”.

A verdade é que o Porto de Jesualdo acabou por conseguir um resultado positivo em Alvalade, mas denotou uma total descaracterização daquilo que sempre marcou o Porto e que sempre originou o respeito e o receio do adversário, o que acabava por traduzir em maior domínio e mais vitórias.
É verdade que Jesualdo chegou á pouco tempo, é verdade que é um treinador que opta pelo realismo e pela consistência defensiva, mas toda esta postura contrária ao subsistema cultural do clube, poderá ter consequencias danosas e poderá romper com aquilo que tem sido a cultura de vitória do passado recente do clube.
Com ou sem tempo para a aplicação do seu modelo de jogo, o técnico terá de entender aquilo que é o clube e aquilo que sempre o marcou.

Ao FC Porto exige-se pressão, atitude e uma veia claramente ofensiva. Exige-se que os adversários sejam “abafadas” para que a posse de bola esteja mais tempo do lado Portista, permitindo-lhes assim maior domínio do jogo e encostar os adversários á sua defensiva.
O factor medo não é permitido no Dragão, e os adeptos ,cada vez mais, exigirão outro tipo de atitude.

08 maio 2006

Tensão, desespero e angustia!

Ontem assistimos a um Domingo de todas as decisões.
Depois de uma grande noite na queima das fitas no Porto, e depois de um Porto - Benfica em juvenis …praticamente de directa, decidi não dormir e dar um salto a Guimarães, para assistir ou não, a um milagre Vitoriano.

Á partida esperava um ambiente tremendamente hostil e tenso, com fortes medidas policiais.
A verdade é que á chegada vi muito gente com a sua camisola e bandeira do Vitória e alguma esperança, no entanto, percebeu-se que a crença já era pouca pois o Estádio ficou com muitas cadeiras vazias e muitos dos adeptos dirigiram-se ao Afonso Henriques apenas para pedir explicações.

Foi com muito gosto, que me sentei na bancada dos sócios vitorianos e vi o jogo calmamente e sem grandes ondas “violentas”.

Os jogadores entraram em campo e logo se avistou uma enorme faixa de incentivo ao clube da cidade Berço, faixa essa que rodou todo o Estádio numa grande demonstração de apoio.
Mas este apoio, parece-me a mim, era apenas fogo de vista, pois os adeptos do Vitória mostraram-se divididos. Uns assobiaram, outros insultaram a equipa e outros decidiram apoiar e esperar pelo milagre.

O jogo foi decorrendo, o golo não aparecia, e a tensão aumentava.
Os jogadores eram assobiados sempre que erravam, salvo algumas excepções. Notou-se claramente que 2 ou 3 jogadores do Vitória ainda têm o apoio da massa associativa (Moreno, Saganowski e Cleber).

As primeiras palmas e celebrações surgem quando se soube que o Leiria estava em vantagem no marcador.
Eram ás centenas as pessoas munidas com um pequeno rádio para ter na hora as notícias dos outros jogos.
É neste ambiente que o árbitro apita para o intervalo e sente-se pela primeira vez uma assobiadela geral, e um clima hostil para a equipa.

Na 2ª parte o Vitoria entra com garra, deixando no balneário a imagem de resignados com que brindaram os adeptos na 1ª parte.
Os adeptos empolgaram-se, o golo esteve perto mas Paulo Lopes e alguma falta de “inspiração” dos jogadores vitorianos não permitiram os festejos dos adeptos da cidade Berço.

O tempo ia passando, os outros resultados da Liga punham o Vitória na 2ª e as pessoas começaram a “acercar-se” do relvado, já pensando numa possível invasão para pedir explicações aos jogadores.
Foi nessa altura que a polícia de choque interveio e criou um perímetro de segurança em torno do relvado.
De qualquer forma adivinha-se o pior, e os adeptos do Vitoria estavam mesmo nervosos.

É no momento do golo do Estrela que o ambiente aquece para não mais arrefecer.
As claques insultavam o Presidente Vitor Magalhães, os jogadores eram chamados de “palhaços”, os assobios eram uma constante e esperava-se o apito final, adivinhando-se o pior.

O jogo termina os jogadores correm para o balneário,e os adeptos começam a “ameaçar” a invasão, mas o policiamento existente impediu que tal acontecesse.
Os vidros da vedação foram partidos, a porta para o relvado da bancada nascente foi arrombada e de repente começam-se a ver cadeiras voar para a relva, em direcção aos policias que passaram a ser o alvo da ira dos adeptos.
Felizmente ainda há adeptos conscientes que começaram a recriminar tais actos, pois estava-se a destruir património do clube, e depois de alguma confusão entre adeptos os ânimos serenaram um pouco, e já 10 minutos depois do jogo terminar vem o momento mais bonito de toda esta tarde futebolística.
Ouve-se alto e em bom som toda uma falange de apoio vitoriana, a cantar “Vitória até morrer”, admito que até me arrepiou e não tive qualquer problema em bater palmas a este momento de rara beleza, numa tarde marcada pelo clima tenso, de angústia e de desespero por parte dos adeptos Vitorianos.

De qualquer forma soava nas bancadas que “lá fora” seria um "Texas", e que todos os adeptos vitorianos se deveriam concentrar na porta por onde saiem os jogadores, para serem pedidas explicações.

Juntaram-se centenas ou até mesmo milhares de pessoas naquele “cantinho”, preenchendo jardins, ruas, rotundas, etc.
O ambiente era hostil, a tensão era grande, o “povo queria sangue”, mas os jogadores teimavam em não sair.
Depois de tanto esperar (1 hora), alguns adeptos mais “infelizes” decidiram brindar a polícia com petardos e a tensão entre adeptos-policia aumentou. Felizmente a polícia de choque teve um comportamento exemplar nunca retaliando com violência e fazendo da sua arma a intimidação, foi aumentando a zona controlada por eles de forma a que os intervenientes pudessem sair do Estádio.

Esperou-se 1 hora, 2 horas…o “povo” não arredava pé e de repente chega um reforço enorme de policiamento, de forma a dispersar as pessoas para abrirem caminho até á entrada para a auto-estrada para que o Estrela de Amadora pudesse seguir caminho.
Mais uma vez o bom sendo da polícia imperou e apenas usaram a intimidação e a calma para conseguirem progredir e criarem uma zona segura para o Estrela passar.

É passado bastante tempo e já em ruas algo distantes do Estádio, que avisto a camioneta do Estrela que ao contrário do que se poderia esperar, foi brindada com uma enorme salva de palmas.
Reparei na cara do Manu algo espantado com a recepção dos adeptos vitorianos á camioneta do clube da Amadora e a verdade é que foi salutar e de um grande desportivismo esta atitude dos adeptos de Guimarães.

Depois de esperar e desesperar, as pessoas começaram a dispersar e a camioneta do Vitoria nem ve-la.
Há quem diga que os jogadores saíram em camionetas da polícia dissimulados de agentes de autoridade. Mas a verdade é que não existiram certezas de nada.

Decidi ir jantar a um café próximo e eram já 23 30 quando passo em frente ao Estádio e ainda adeptos do Vitoria se mantinham nas ruas talvez ainda incrédulos com a situação do clube.
Tive ainda oportunidade de falar com um elemento do VitoriaSempre e da claque dos Insane, o Paulo Roberto (já o conheço á bastante tempo), e notou-se na sua cara, desalento, desilusão tristeza e sobretudo angústia. Admito que até eu fiquei triste com toda esta situação, pois adeptos como o Paulo Roberto que vivem para o clube talvez não merecessem passar pelo que estão a passar.


Em conclusão, senti um clima de tensão, mas que acabou por ser pacífico dentro dos limites que eram possíveis.
Estragos, apenas algumas cadeiras e um ou outro vidro, não existiram confrontos com a polícia e os jogadores do Vitória ao que sei puderam chegar a suas casas tranquilamente.

A lei e ordem acabou por reinar!