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13 abril 2006

Entrevista com José G. Chieira (2ª parte)




E aqui estamos, para a 2ª parte da entrevista, com José Guilherme Chieira.

Penso, que é tempo de falarmos em temas “quentes” do nosso panorama futebolístico.
Assim, começo, desde já, pela Liga BetandWin.

José, começo por lhe fazer 2 perguntas muito gerais.
Qual a sua opinião, em relação ao nosso Campeonato?
O campeonato não é assim tão mau como muitos o ‘pintam’ – eu tenho oportunidade de ver muito futebol por esse mundo inteiro e acreditem que, em termos de qualidade/competitividade/organização das equipas, estamos num patamar bem interessante. Creio que tem havido, isso sim, uma guerra cada vez maior pelo ponto – o que condiciona o espectáculo. E este ano, com 4 clubes a descer de divisão, essa tendência tem-se acentuado.
Temos alguns bons jogadores (considerando os orçamentos disponíveis quando comparados com outras ligas), jogos quase sempre nivelados e uma competência aceitável em termos do trabalho específico dos treinadores (organização de equipas, estudo do detalhe, aproveitamento do erro, etc).

Qual a sua opinião, em relação aos dirigentes do Futebol Nacional?
Penso que o dirigismo que temos tem muito a ver com a própria cultura nacional – é mais uma questão de educação/formação do nosso povo do que outra coisa. E neste aspecto, como em alguns outros noutros quadrantes, deveríamos estar mais evoluídos.
FC Porto e Benfica contrataram 2 técnicos Holandeses. No entanto, o Campeonato Nacional é cada mais “um campeonato de treinadores Portugueses”.

Considera descabida a aposta em técnicos Holandeses, ou por outro lado, a vinda destes técnicos “incrementa” algo de novo no nosso Futebol?
O futebol é uma ciência que já deixou de ser oculta há muito tempo – e, também por isso, os clubes fazem escolhas conscientes e com determinadas intenções, seja numa tentativa de apostar em determinados tipos de culturas diferentes (de trabalho e de educação), e/ou procurar perfis ganhadores e competentes em vários vectores (técnico, lideracional, organizacional, conjuntural, etc).
Penso que estar a falar de ‘técnicos Holandeses’ é demasiado redutor – até porque Koeman e Adriaanse são bastante diferentes como treinadores (apesar de revelarem, naturalmente, uma postura mais ou menos alinhada noutros quadrantes).
Agora se houve ou não ‘incrementos’ ... eu creio que houve uma evolução em alguns sentidos, alguns dos quais até se revelam mais num contexto não-técnico.
E temos que ver que os clubes em causa (FC Porto e Benfica) lutam por objectivos máximos – e não é fácil encontrar, em qualquer mercado, treinadores com trajecto ganhador capazes de trazer uma mentalidade e hábito de vitória, até porque em cada país só um clube pode ser campeão em cada época e, assim, construir este tipo de perfil não é nunca um fenómeno muito frequente em qualquer mercado interno...

E em relação aos técnicos Portugueses? Considera que houve uma evolução dos treinadores em Portugal? Ou considera, que por outro lado, assistimos a uma alteração de mentalidade na aposta dos dirigentes em algo que é Nacional?
Penso que o ‘fenómeno Mourinho’ veio reacender a discussão sobre o ‘técnico português’ e funcionou em vários sentidos: por um lado, tornou-se evidente que um treinador português é capaz de ganhar tudo, trabalhando a um nível diferenciado mesmo em termos de cenário mundial, ultrapassando os ‘mitos’ dos treinadores/estrategas italianos, treinadores/espectáculo espanhois e outros (que tiveram aliás quase sempre, nos últimos 40 anos, jogadores e todo o tipo de condições com mais qualidade obtidos com orçamentos cada vez mais desnivelados); por outro lado, José Mourinho só há um, e seja qual for a sua fórmula de sucesso, penso que se caíu no exagero ao falar-se da ‘nova vaga’ de treinadores nacionais. Eu creio, isso sim, que há bons e maus treinadores – e em qualquer parte do mundo. E há uma natural evolução da ciência do treino em todo o mundo (tal como a Física ou a Medicina também avançam) e o treinador português também melhorou.
Ora se estamos a falar de uma indústria muito particular em cada país (já de si com culturas e vivências também particulares), é natural que um líder, um tomador de decisões, isto é, um treinador – esteja mais preparado para tomar as melhores decisões no seu próprio meio, aumentando a probabilidade do seu sucesso. E foi esta maior consciencialização (até pela evidência, após equívocos consecutivos) que levou o dirigente nacional a tomar decisões mais racionais – e apostar no ‘treinador português’, tal como já se verifica de uma forma geral nos países mais avançados nesta indústria ao apostarem em técnicos locais, em que a mobilidade internacional dos treinadores é bem menor que as dos jogadores.

Considera que cada vez mais, os clubes “designados” de pequenos conseguem travar duelos com os “designados” grandes? É defensor do campeonato estar nivelado por cima?
Como já referi antes, não penso que haja um nivelamento por baixo ... pelo menos quando comparamos com há 10 anos atrás, por exemplo.
Quanto aos duelos ‘grandes vs pequenos’: é óbvio que o factor ‘orçamento’ cria desequilíbrios decorrentes do natural funcionamento do mercado de transferências (treinadores, jogadores e outros profissionais) - mas também não é menos verdade que, hoje em dia, quase todos os factores que determinam as perfomances são aproximados: os recursos humanos, físicos, e organizacionais têm tido uma tendência geral de aproximação e a circulação da informação (factor determinante em todos os mercados, não só no futebol) é muito mais rápida e eficaz que no passado. Por exemplo, hoje um clube com menos capacidade financeira tem muito mais instrumentos ao seu dispor para aferir a qualidade/perfil de jogadores de qualquer continente ... o que (em teoria) minimiza a margem de erro e permite uma maior e melhor rentabilização dos seus recursos.
Mesmo assim é normal que ainda se verifiquem diferenças, se bem que menores, pois por vezes a diferença de talento ou de outras características específicas de alguns atletas tornam-nos tão especiais que a soma das partes tem de acabar por ser superior numa prova de regularidade como é um campeonato, independentemente de factores mais ou menos externos que se possam sempre sugerir.

Voltemos a introduzir o Football Manager.
O Futebol Português sempre foi visto como parente pobre, pelos clubes e dirigentes de outros países Europeus.

O José, na Sports Interactive, terá feedback da opinião de pesquisadores de todo o mundo sobre o nosso Futebol. Pode-nos dar uma ideia de qual é essa opinião?
A ideia circulante neste meio não é diferente do que a que circula noutros: existem bons jogadores, jogadores fantásticos (não muitos) e ... os outros.
Digamos que se nota, isso sim, um cada vez maior conhecimento das equipas nacionais, pois os canais televisivos locais e internacionais (desportivos e não só) acabam por mostrar sempre imagens da 1ªLiga.
Quanto a opiniões formadas sobre outros factores - é evidente que situações como as que se verificaram a época passada na indefinição de calendários, regras das competições etc ... não são prestigiantes. É sempre uma luta inglória tentar que todos os detalhes das nossas competições sejam devidamente implementados no FM, simplesmente porque a velocidade das alterações é muito superior à velocidade de programação da SI quando se tem de gerir as competições de mais de 50 países!

No Football Manager, temos assistido a uma melhoria significativa, ao longo dos anos, dos clubes e jogadores Portugueses. Poderei considerar este factor, como uma prova do reconhecimento Internacional da qualidade do Futebol Nacional?
Penso que sim – e/ou talvez os outros países tenham vindo a perceber que afinal não são assim tão melhores que nós ... os sucessos em provas internacionais têm sido cada vez mais frequentes e mediatizados, por isso há evidências que acabam por fazer ‘ajustar’ a evolução do FM de uma forma semelhante à da realidade.

Bom, por outro lado o José ao ser o elemento que cria e produz o Campeonato Português, pode indirectamente ser uma “peça” com algum peso na divulgação do nosso futebol, e da qualidade do mesmo. Sente isso? Tem essa preocupação?
Eu sinto que, acima de tudo, devemos fazer um trabalho colectivo sério em termos da transposição do futebol de cada país para este produto, que neste caso é o FM – e que este produto tem, ano após ano, uma força mediática considerável não só em Portugal como também em todo o mundo ... cada edição bate novos recordes de vendas e chega a todos os continentes.
E isto implica responsabilidade e compromisso da minha parte em ‘divulgar’ o nosso futebol – e ‘divulgar’ significa observar, registar, aferir, avaliar e transmitir literalmente tudo o que ‘é’ o Futebol Português...

O Futebol Português é constantemente criticado por dirigentes, políticos, etc.
José, o que mudaria no Futebol Nacional se tivesse esse poder?
Não é uma questão que se responda em poucas linhas ... mas uma postura mais controladora e reguladora das entidades competentes (Governo, Federação, Liga), seja com mecanismos de prevenção e/ou punição - seria positiva para que todos os agentes envolvidos no Futebol Nacional tivessem comportamentos mais racionais, respeitadores e positivos. É certo que esta indústria é muito particular (começando pela formação e sensibilidade específica das pessoas que a integram) e que o factor ‘educação’ do nosso povo tem uma marca muito própria – mas se esta mesma indústria funciona noutros países, então há que apreender e aprender o que fazer para que também em Portugal seja vista (e funcione) como uma indústria de sucesso.

Considera que o nosso Futebol revela sinais de amadorismo?
De uma forma geral sim ... mas tenho notado melhorias, principalmente em termos dos serviços complementares (promovidos por pessoas que não são ‘do’ futebol), os quais por vezes até acabam por ‘obrigar’ o dirigente a ser mais responsável e profissional.

Termino este tema com perguntas simples, mas curiosas.
José, quem será, na sua opinião, o vencedor do campeonato 05/06 em Portugal?
A minha opinião não conta para as contas ... mas não deve fugir da luta Porto/Sporting.

Quais os jogadores que o têm encantado nos relvados Portugueses?
Enquanto há muita gente que prefere valorizar o rigor táctico ou a solidez defensiva (tão em voga), eu tenho um encanto especial por jogadores de talento, que aportem o lado mais positivo do jogo, que dêem espectáculo ... Nani, Simão, Quaresma, Felipe Teixeira, Benachour, Fábio Felício, Manú, Alexandre Goulart ...
E depois também aprecio os outros de ‘futebol total’, que interpretam o futebol moderno de versatilidade, dinâmica, inteligência ... João Moutinho, Lucho, Manuel Fernandes, Harrison, Wenio...

E os clubes com mais probabilidades de descer. Quem serão?
Sinceramente, não me atrevo a avançar este prognóstico...

José, não resisto a fazer-lhe algumas perguntas sobre Blogs Futebolísticos.

Considera que a existência de blogs Futebolísticos de qualidade, é uma alternativa válida a uma imprensa desportiva cada vez mais manipulada e manipuladora?
Só o facto de haver alternativas já é positivo ... e tanto melhor se estão disponíveis neste fantástico veículo da democracia que é a internet e, ainda por cima, revelam uma capacidade crítica e analítica de qualidade, que vai desaparecendo da imprensa tradicional.

É visitante assíduo deste tipo de blogs?
Sou ... sempre que tenho tempo disponível!

Nunca pensou em criar um?
Pensar sim ... http://olheirofutebolclube.blogspot.com/ - mas infelizmente (ainda) não tive tempo para um único post!!

O que pensa do http://www.futebolices.blogspot.com/ ?
É sempre muito positivo ter a possibilidade de ler e reflectir sobre assuntos que, de outra forma, acabam por se diluir na velocidade a que corre a indústria do Futebol dos nossos dias – independentemente de nem sempre ter de haver concordância de ideias, o debate e a reflexão podem ajudar a educar e até a mudar mentalidades.
Por isso, parabéns pelo blog – já o conhecia e deixa-me sempre a pensar.

Bom, a entrevista já vai longa e portanto é tempo de terminar.

Perguntar-lhe-ia só para terminar, quais os seus planos para o Futuro?
Trabalhar todos os dias ... em qualquer parte do mundo.

Deseja deixar uma mensagem aos fans do Football Manager e aos adeptos do Futebol Nacional?
Queria, acima de tudo, agradecer a dedicação de todos os Treinadores FM – que, ano após ano, são a verdadeira razão para todos nós (incluindo aqueles que, livre e gratuitamente, colaboram mais de perto com a Pesquisa Portuguesa em http://www.fmportugal.net/ – bem hajam!!) acreditarmos que o FM é muito mais que um jogo!
Quanto aos adeptos do Futebol Nacional – que aproveitem o melhor que o Futebol nos dá ...

Com um abraço especial para os leitores do www.futebolices.blogspot.com,

José Guilherme Chieira
jose.chieira@fmportugal.net


Fica concluída assim a entrevista a José Guilherme Chieira, um Homem do Futebol, com ideias concretas, opiniões firmes e sem dúvida uma personalidade simpática e curiosa.
A ele o meu muito obrigado por esta entrevista, e ao leitor espero que as perguntas tenham sido as mais pertinentes possíveis e que a entrevista no seu todo seja o mais interessante possível.



Assim me despeço
Nelson Oliveira

12 abril 2006

Entrevista com José Guilherme Chieira




Olá!

Tenho uma enorme honra em inaugurar um novo espaço neste blog, que julgo contribuir de forma inequívoca para a, cada vez mais, comprovada credibilidade do mesmo.
Trata-se de um espaço onde iremos entrevistar personalidades do nosso Futebol, tentando compreender um pouco melhor todo o fenómeno deste desporto em Portugal.
Julgo sinceramente tratar-se de um passo decisivo para a afirmação nacional deste blog.


A primeira entrevista ficou reservada para alguém muito conhecido por uns, um pouco menos conhecido por outros, mas acima de tudo com um trajecto assinalável no Futebol Português.
Falo-vos de José Guilherme Chieira, conhecido por ser o responsável por todo o campeonato Português do famoso jogo Football Manager, mas conhecido no mundo do futebol também por ter desempenhado importantes cargos em clubes de referência nacional, que mais tarde citaremos.
José, tem 32 anos e quando questionado sobre o local onde reside, respondeu “curiosamente” da seguinte forma: “Entre Lisboa, Coimbra… e onde for necessário!”.


Nota: Para que o entusiasmo do leitor seja maior, decidi por bem, dividir a entrevista em duas partes, que serão apresentadas em dias consecutivos.
Desta forma o leitor, terá a hipótese de ler cada uma das partes de forma atenta e sem considerar as mesmas algo “maçudas”.



Apresentações feitas e explicações dadas, dou início à entrevista.


Olá José Chieira!
Antes de mais agradeço-lhe ter aceite o nosso convite para esta entrevista.


Bom José, em primeiro lugar temos que começar pelo Football Manager.

O José é visto como o “Pai” do agora Football Manager. Sente orgulho nessa designação? Sente que a comunidade do jogo o vê como uma referência?
Sinceramente isso nunca me passou pela cabeça... felizmente tenho a sorte de poder integrar uma equipa fantástica e fazer algo de que gosto. Se o trabalho é reconhecido por alguns, tanto melhor.

O Football Manager é talvez o jogo mais mediático de sempre. Considera que o êxito do jogo e a forma como este o fez ficar conhecido a si, o ajudou a subir no mundo do futebol? Ou pelo menos a cimentar a sua posição?
Não diria que foi o mediatismo do jogo, que é evidente, mas talvez mais o trabalho que ele me permitiu desenvolver – principalmente o que é conduzido no terreno, mais completo do que a maioria dos clubes (principalmente portugueses) faz, em campos relvados, pelados e sintéticos de norte a sul, de manha, à tarde e á noite, faça chuva, sol ou trovoada!
O trabalho que o jogo implica também permitiu que desenvolvesse um know-how específico em termos de sensibilidade perante todos os factores que giram dentro e fora da indústria do futebol – e o resto tem a ver com aproveitar as oportunidades que temos e mostrar competência nas tarefas.
Eu não fui jogador profissional (apesar de ter jogado em selecções universitárias), aliás tal como José Mourinho ou Arséne Wenger nunca o foram – e por isso conseguir uma maior ou menor afirmação nesta indústria pode ter sido mais complicado do que para outros (para não falar do factor desconfiança que implica), porque ‘subir no mundo do futebol’ não é um processo inocente nem semelhante ao de outras indústrias, e acreditem que o facto de ser mais ou menos mediático não influencia (quase) nada num mundo que vive de resultados imediatos e com uma margem de erro mínima.


Sei que o José para além do projecto Football Manager foi até à bem pouco tempo uma figura activa no Futebol. Pode-nos contar resumidamente a carreira do José Chieira no Futebol?
Iniciei-me como ‘Head Researcher’ das ‘Pessoas que faziam o Championship Manager’ em 1995 (na altura ainda nem sonhavam com a Sports Interactive), que mantenho até ao momento (sou o Head Researcher mais antigo em funções, incluindo o colega inglês) – com variadas funções, incluindo a de pesquisa de todos os dados do futebol português, seja a prospecção de jogadores, até à informação sobre treinadores, clubes, regras, competições etc etc etc.
Em 1998 tive o prazer de ser escolhido pela Reebok para ser o gestor de futebol da marca em Portugal, que acabava de fechar o seu primeiro grande contrato de patrocínio técnico com o Sporting C.P., mas que tive que abandonar para concluir o meu curso (Economia).
Depois tive a oportunidade de colaborar de perto também com o Sporting C.P. – mas desta vez na área da prospecção juvenil, onde pude aprender muito com a melhor e maior escola desta área na altura em Portugal.
Estive depois ligado 2 épocas ao Vitória de Setúbal, já no Gabinete de Prospecção liderado pelo Joaquim Rebelo no âmbito do Departamento de Futebol Profissional – onde posso dizer que desenvolvemos um trabalho muito valioso o qual, ainda hoje, dá frutos.
Fui depois chamado pela Académica de Coimbra para criar e liderar o Gabinete de Prospecção, com um âmbito muito alargado e transversal, onde me mantive durante quase 3 épocas e durante as quais tive a oportunidade de trazer jogadores como Fábio Felício, Zé António, Marcel, Felipe Teixeira e outros (das escolas aos seniores) que estou certo que darão ainda mais frutos (desportivos e financeiros) ao clube.
Da Académica saí para exercer, nesta altura, funções de director executivo em duas empresas de futebol – uma delas de um Agente FIFA de jogadores, e outra também com licenças oficiais UEFA e FIFA de organização de jogos, torneios, estágios etc.


A pesquisa exaustiva que faz para melhorar a base de dados do jogo, ajudam-no de forma indirecta nos cargos que ocupa no Futebol? De que forma?
Claro que sim - porque sou ’obrigado’ a estar sempre muito atento a tudo o que se passa e, até, a desenvolver uma percepção apurada de factores como por exemplo o conhecimento dos mercados e dos seus profissionais (jogadores, treinadores e até presidentes).


Como ex Director de Prospecção, não considera que ao atribuir notas a jogadores num jogo de computador, em que a sua base de dados é utilizada cada vez mais por treinadores e dirigentes, não estaria a expor um pouco do seu trabalho? Ou sempre teve a preocupação de não o fazer?

Os objectivos deste trabalho concreto de prospeção e avaliação que desenvolvo para a Sports Interactive mantêm-se intactos desde o primeiro dia – e como um deles é o de ser (e manter-se) líder mundial em termos de informações de futebol, entendo que não há que ter problemas desse tipo; antes pelo contrário, o trabalho desta fantástica Equipa de Pesquisa do FM em Portugal é ainda mais valorizado com uma sua eventual utilização pelos profissionais de futebol.

Continuando ainda no mundo do Football Manager, o José lidera uma vasta equipa de pesquisa. É como se liderasse “indirectamente” uma vasta equipa de observadores.
A minha pergunta é: O José separa a equipa de pesquisa do Football Manager de determinadas funções no mundo real do Futebol, ou tem casos, em que convidou elementos da equipa de pesquisa para trabalharem para si no Futebol?
Nunca convidei ninguém para tal – mas é evidente que as informações e as relações que se geram a partir do FM são úteis para qualquer trabalho em futebol!

De forma objectiva, ser o HeadResearcher Português enriquece o seu trabalho no Futebol? Tira partido disso?
Enriquece e muito – o tirar partido tem a ver com a sorte de se poder fazer aquilo que se gosta e, ainda por cima, ir recolhendo experiências e vivências que nos são úteis no nosso trajecto profissional e, também, pessoal.

José, sugiro agora que falemos um pouquinho do Futebol de Formação, algo que me parece vital no futuro do Futebol Nacional.


Qual a sua opinião sobre o Futebol de formação Português, em termos de aposta no mesmo e seu aproveitamento no Futebol de alto rendimento?
Eu creio que devemos fazer uma separação clara entre a fase pré-Carlos Queiroz e a fase pós-Carlos Queiroz – o prof. Carlos Queiroz fez um trabalho fantástico de organização, responsabilização e rentabilização do futebol jovem em Portugal, no âmbito do seu trabalho na F.P.F.
É evidente que as gerações jovens nacionais desde finais da década de 80, fruto deste trabalho, transformaram a mentalidade do futebol português – que percebeu que o talento inato dos seus jogadores, quando devidamente potencializado, pode ser muitíssimo rentável (principalmente em termos financeiros).
O factor financeiro também foi preponderante, pois o estrangulamento crescente das finanças dos clubes obrigou-os a virarem-se mais ‘para dentro’.
Como factores contra, temos a própria lógica de funcionamento do mercado, com jogadores de alguns campeonatos a serem bastante mais baratos (apesar de eu não gostar de confundir custo directo com custo efectivo /relação custo-rendimento) – e a Lei Bosman, que abriu ainda mais os mercados e também condiciona o espaço de afirmação dos jovens nacionais.
Em resumo, cada clube segue hoje uma lógica muito própria, que também tem a ver com as suas próprias condições estruturais (físicas e humana) mas que está relacionada acima de tudo com a sua política directiva – mas, do muito que vou conhecendo, não tenho dúvidas de que os clubes nacionais têm dificuldade em olhar para a formação com a ‘tranquilidade’/seriedade que esta merece, pois as limitações financeiras acabam por, quase sempre, levar o dirigente a ter tendência para investir (gastar) no futebol sénior, para o qual olha como factor mobilizador de toda a dinâmica do clube.
E este desinvestimento acaba por se reflectir na insuficência generalizada de condições físicas/logísticas e na capacidade de atracção de recursos humanos qualificados - e é este ciclo que está a levar ao desaproveitamento/desinvestimento na formação em Portugal.


O José considera que o futebol de formação nacional e as características específicas do “jogador Português” são superiores á maioria dos nossos vizinhos Europeus, ou muito pelo contrário, somos ainda amadores em termos de formação e trabalha-se mal?
Penso que não devemos confundir talento com formação: existe um talento inato em Portugal muito acima da média em relação a outros países que (também por isso) investem mais e melhor na formação – e a verdade é que, neste momento e de uma forma geral (existem em todos os países determinadas gerações de excepção), as selecções jovens portuguesas têm cada vez mais dificuldades para se imporem em competições internacionais. E observem também o tipo de jogador jovem português que é, hoje em dia, ‘exportado’ para ligas mais poderosas: é normalmente reconhecido mais pelo seu talento do que pela sua eficácia e competência em termos de jogador ‘feito’.
E se dissermos, por exemplo, que todos os clubes que disputam as ligas profissionais em França são obrigados a ter centros de formação para atletas até aos 20 anos, com requisitos elevados em termos de condições físicas e humanas, há já largos anos – e que em Portugal, nesta altura, existem não mais que uma mão cheia deles...
Por isso penso que não se deve falar em trabalhar mal ... mas sim numa incapacidade colectiva nacional para perceber o que é importante nesta indústria para a sua rentabilização, para não dizer sobrevivência – porque a formação é, tal como o nome indica, o acto de formar, educar, ensinar...


O jogo Football Manager é sem dúvida uma referência em relação a jovens craques. Várias pessoas me confessaram, que ficaram a conhecer uma jovem estrela por intermédio do jogo.
Temos no nosso Futebol, uma jovem estrela pronta a “explodir” para o Mundo do Futebol e até de forma indirecta no Football Manager?
Eu preferia deixar essas ‘descobertas’ para o vosso ‘trabalho’ de Treinadores FM!!


Para terminar este tema, podia-nos citar 3 ou 4 nomes, que para si serão, actualmente, as 3 ou 4 maiores promessas do futebol juvenil Nacional?
Promessas são sempre apenas ‘promessas’ ... mas penso que, com menos de 17 anos, jogadores como Adrien Silva (Sporting, sub-17), Bruno Simões (Sporting, sub-16) e Fábio Ferreira (Chelsea, sub-17) são realmente especiais.


Bom, a 1ª parte desta excelente entrevista fica por aqui.
Abordamos o trajecto do nosso entrevistado, o jogo Football Manager e o futebol de formação em Portugal.

Amanha, na 2ª parte da entrevista, abordaremos o Futebol Profissional entre outros temas. Esperem para ver….

Cumprimentos
Nelson Oliveira